Os Sons do Mundo.


Por : Raquel Maia de Toledo. (SP: 31/08/2020)

Fui acordada por atropelamento de um som de máquina.

Som desnecessário, ou necessário ? Não sei dizer. Sua fonte de produção me era invisível aos olhos, porém fui tirada do sono por esse despertador. De certo modo, pode-se “ver” com a audição o que não temos ao alcance do sentido da visão. A antecipação mental dos perigos circundantes através do sentido auditivo, captando o som-linguagem_do_ mundo é algo que carregamos ainda, um instinto herdado desde nossas origens biológicas remotas, como tão bem exposto em corpo teórico por Charles Darwin.

Perdeu-se a noção do que significa a produção dos sons, do impacto que eles nos causam, e de que modo ultrapassam os limites territoriais do emitente. Da casa vizinha, um imóvel comercial que está sendo reformado há quase um mês, tenho recebido torpedos, bombas, tiros de arco e flecha, pedradas, balas de canhão, rajadas de metralhadora : em forma de som.

Por excesso de sensibilidade ao discurso sonoro me dedico à música desde infância. Estudo a natureza do som, seu impacto no ser humano ao ser organizado no que se denomina “discurso musical” , que contém o som-musical. E com o intuito de alcançar cada vez mais a compreensão desse som-musical, me debruço a compreender todas as manifestações do som.

É inegável que a perda da noção do limite da propriedade, a perda da noção do impacto do ruído na vida humana ( assim como a perda de noção do significado e função da arte que faz dos sons sua matéria prima) , impregnou a percepção normal , portanto média, do mundo. Um mundo que se torna cada vez mais sujo, e no qual até mesmo a noção de “sujeira” se faz necessária explicar, visto que árvores são derrubadas para que suas folhas não “sujem” quintais – está é a demanda das proprietárias das casas do fundo da vila onde resido, visto que esse fundo da vila residencial tem área contígua profuzamente arborizada .

Os sons, os cheiros, nos invadem todo tempo. Nas zonas urbanas nos é imposto o cheiro dos poluentes de toda espécie, e me vejo obrigada a inalar não só a fumaça do cigarro alheio, mas também a fumaça dos escapamentos de veículos motorizados de toda espécie. Inalo também fórmulas denominadas como “perfumes” que me são impostas nos meios de transporte coletivos, quer satisfaçam meu gosto pessoal ou não o satisfaçam. Trata-se da sujeira-olfativa. Ouço, através de um ato absolutamente tirânico de cada ser humano, toda sorte de ruídos ( e a máquina sórdida do vizinho retoma seu trabalho intermitentemente ) bombardeando meu sentido da audição intempestivamente – estou me referindo à sujeira-auditivaMe é imposto um mundo onde a visualidade não adquire status nenhum como agenciadora de um bem estar versus um mal estar . Um mundo onde as formas orgânicas da natureza são subistituídas por formas geoméricas assépticas , onde caixotes de tijolos adquirem status de “arquitetura” – porém se constituem , ao invés de arte, sujeira-visual. Esta até mesmo presente em regiões onde etnias indígenas abandonam sua estética da floresta e passam a reproduzir cópias de um suposto bem morar urbano , consumido-as como se opção não houvesse, e me refiro às concepções consequentes das idéias de Rudolf Steiner.

Este é o mundo produzido pelo homem científico, que destrói tudo o que a natureza lhe oferece com fartura espontaneamente, desde que gerenciado em acordo com a verdadeira natureza da inteligência : a que promove a vida. A racionalidade científica impõs a regra que tudo é válido , desde que gere dinheiro. Essa racionalidade científica que procura a vacina para o covid-19 foi a que , em uma análise honesta, criou as condições para que esse mesmo covid-19 fosse convidado a ser hóspede do humano. Esse gesto elegante, esse convite sutil foi feito pelo homem através de sua negligência por tudo o que rege a vida desde sua perspectiva inteligente , que está bem afastada da racionalidade científica que disseca cadáveres num laboratório para desvendar o princípio da vida – gostaria que alguém me explicasse do que isso se trata, porque até o momento só consigo encontrar a perplexidade ao meditar sobre tal atitude, praticada com total devoçao. A vida só se descobre a partir da vida, e não da morte . Ao contrário do que se apregoa, vejo sentido em assinalar que a dissecação de um cadáver para encontrar a vida se encaixa na necro-logia, e jamais na bio-logia. Até o uso da linguagem caminha para seu avesso, neste mundo onde está instaurada a sujeira-do-contato , uma vez que o contato agora pode acarretar a morte pelo contágio.

Humanos são feitos cobaias de uma ciência que da mente só conhece o cérebro sem vida numa bandeja de laboratório. Eu fui uma dessas : usada e descartada por Universidade Pública de reconhecido “valor”, sem direito a qualquer manifestação de desagravo. Fui usada, “quebrada”, e após , os pesquisadores do Departamento, desda a cúpula até a base, se eximiram da reponsabilidade pelo “conserto”.

Imagens do funcionamento desse órgão humano são examinadas em condições artificiais. Tenciona-se compreender a mente do músico enquanto o músico exerce sua função num laboratório, com fios grudados em sua cabeça, ou quiçá enquanto está colocado dentro de um tubo fechado , onde imagens de seu cérebro são captadas enquanto executa um instrumento musical estando em isolamento de tudo o que significa Vida. Que “músico” está sendo tomado como parâmetro para se estabelecer o modo de operação cerebral do Músico ? Que pessoa é capaz de tocar com emoção genuína enquanto está fechado num tubo dentro de um laboratório que por sua vez também está fechado ? Quais os pressupostos que geraram esse tipo de mapeamento “cerebral” ? Qual o universo mental e psíquico do cientista que avalia esse ” músico” ? Qual o “corpo” que está sendo avaliado ? Não seria mais apropriado o mapeamento do sistema nervoso central ? Um mapeamento do encéfalo (composto pelo cerebelo, cérebro e tronco encefálico) como um todo que se articula e opera de algum modo específico durante o fazer musical genuíno , que defino como expressão da essência humana através do discurso sonoro estabelecido a partir de parâmetros estéticos diversos, mas que apontam para o que o consenso estabelecido por longa tradição filosófica herdada desde a Antiguidade Classica, denomina por Música?

Num mundo onde a ciência tomou o rumo que tomou – o nosso mundo – as propriedades do som não são avaliadas na profundidade necessária e agora possível. A música foi tornada uma atividade humana marginal praticamente, visto que sequer como disciplina obrigatória no ensino brasileiro consegue se impor de modo efetivo, apesar da legislação em vigor.

som-ruído da máquina é incorporado como normal e aceitável – quem o rejeita na medida que eu o rejeito é segregado socialmente visto que tem que se isolar cada vez mais desse mundo barulhento. Tenho consciência do distúrbio que provoca, e sinto esse distúrbio a nível de minha corporeidade tangenciável no momento que ocorre . O barulho que ouço no momento me provoca náuseas. Tenho consciência plena que estou sendo afetada a um nível muito sutil , a saber, no âmbito da perturbação gerada a nível quântico no meio ambiente que me circunda neste momento, pois os pacotes de energia percorrem o meio atmosférico e atingem não só meus canais auditivos, que decodificam os Ficks (pacotes de energia fonica) até eu os perceba como frequências (Hz) e potência sonora (Db) no cérebro, e quiçá outras regiões do encéfalo também estejam envolvidas nessa decodificação como mensagem ( referida aqui em seu aspecto semiótico , como portadora de um significado e de um sentido1 ) de algo além de meros sons-fisicos, mesmo que de modo indireto. Esse barulho incessante gera distúrbios profundos no meu corpo psico-vital a partir dos meus chakras provavelmente – mas não posso ter a certeza do modo como se processa o disbúrbio. Essa interferência de energia sônica seria capaz de gerar “miasmas” , ou “foco de parasitismo energético” no meu corpo psico-vital ? Essas perguntas podem ser respondidas com investigações feitas a partir da Bioeletrografia, técnica descoberta no Brasil em 1904 pelo Padre Landell de Moura , redescoberta em 1939 de modo “acidental” por Semyon D. Kirlian na extinta União Soviética .

Som é também som-energia, energia sônica. Albert Einstein a teorizou em 1907, e não se trata de uma novidade ou invenção imaginativa. Mas a ciência quer medir, quer tocar , quer definir as regras do jogo e estabelecer o que é real, o que não é real. O mundo só é tornado real , a partir da Revolução Científica, na medida que pode ser medido, calculado, visto. Foi construído um “microfone quântico” na Universidade de Stanford, pelo Departamento de Física Aplicada, sob supervisão do prof.  Amir Safavi-Naein. Serão possíveis novas pesquisas também a partir disso. Porém, não tenho esperanças de que ainda nesta vida eu vá testemunhar a divulgação em massa da notícia de uma pesquisa que tenha concluído que existem sons que fazem tão mal à natureza que precisam mesmo ser proibidos . Afinal, isso não seria “conveniente” ao mundo-máquina comprometido com certo sistema financeiro que já faliu , exala seus odores de putrefação , mas permanece como regente deste mundo que, como muito apropriadamente apontou o filósofo camaronês Achille Mbemb, tornou-se um mundo necro-político.

Referências :

https://www.somostodosum.com.br/clube/artigos/o-que-e-foto-kirlian-21787.html

http:/newsstanford.edu/2019/07/24/quantum_microphone_counts_particles_sound/

1Conforme também considera Enrique Dussel, Significado e Sentido estão sendo empregados aqui de modos diferenciados um do outro. O rugir de um leão é significante do fato de existir um leão ao redor, porém a presença de um leão ao meu redor não faz sentido, visto que estou em zona urbana residencial , e não tenho notícia de nenhum evento organizado que conte com a participação de um leão no momento. Ainda que houvesse um evento organizado do qual eu tivesse ciência, a participação e presença de um animal selvagem em cativeiro não faria nenhum sentido para mim.

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“Mais” metafísico ?

Ouvi há pouco um estranho comentarista do concerto Osesp transmitido ao vivo. Moço bonito, barba bem aparada, terno bem cortado – aparência de fato impecável,

No entanto, ao apresentar a segunda parte do programa, mencionou que uma obra seria “mais” metafísica que outra : Strauss mais que Hoffman.

Isto por acaso existe ? No meu entender , ou algo é , ou algo não é metafísico.

 

Estou errada ????

 

Acredito que o público de concerto necessite de dados mais concretos do programa, como naturalidade do compositor e período em que viveu, data de composição, movimento estético ao qual está associada, características de linguagem.

A experiência “metafísica”,  ou subjetiva, creio melhor deixar a cargo do ouvinte, amparado por dados concretos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Leituras indicadas sobre música.

 

Apendice aos meus vídeos no yotube.

São livros de estudo de aprofundamento,  e não leitura leve.  Esta é uma lista sumária . Todos disponíveis na internet, em site de hospedagem pago.

 

Arnold Schoenberg . Style and Idea

A. S . Harmonia (e demais sobre composição )

Heinrich Schenker – Five Graphics Music Analyses

Carl Dauhaus – Studies on Origin of Harmonic Tonality

Herman Helmholtz – Ob the Sensations of Tone

Ian Bent, editor – Music Analysis in the Nineenth Century – Fugue, Form and Style.

 

 

Maia .

 

 

 

“Ritmos Negativos”

E eis que em meio ao caos e absurdos dos últimos eventos politicos brasileiros, surge no cenário musical internacional um não menos insólito conceito :

Ritmos NEGATIVOS !!!

Ao que aprendi, coisas como são referidas sob a égide desta novidade eram denominadas como :

  1. Contratempos
  2. Contrapontos de vozes , que surgiam eventualment intercaladas . Uma poderia ser denominada principal e outra ou outras secundarias,,,
  3. Havia a questão das ornamentações nos arranjos também,  quando um tema era adornado por enfeites, por recheios. Era praxe dar uma melhorada em melodias até bem simples.

E agora saiu essa moda.

Aceitei , tentei mesmo assimilar as tais “harmonias negativas”, que vem a ser apenas espelhamentos de acordes – algo que já foi feito diga-se de passagem. Escrevi sobre isso .

 

Temo pela falta de assunto, num mundo onde somente o novo, o inesperado, tem algum valor. Tudo tem que exercer fascínio, e ´passada a novidade, a coisa se esgota – cai no esquecimento.

Até onde se pode “inventar” novidades ?

Ou seja, criá-las artificialmente, para satisfazer a sempre insaciável busca de coisas diversas..sempre diversas.

Os olhares esgotam os objetos de forma veloz e voraz- o vazio está no olhar.

Em breve surgirá o conceito da reta-torta – que encontra seu fim com seu começo. após ter andado em círculo. Antes conhecida por “círculo”. Agora será a reta-circular ? De um anti-desenho ? De uma anti-pintura ?

Devemos lembrar que anti-arte já está inventada como conceito.

Ritmos Negativos – farão parte de alguma incipiente “des-música” ???

Ficarei no aguardo !

Enquanto isso, me rendo à Bach e Beethoven, e seus companheiros também.

 

S.P.  30 de maio de 2019.

 

Raquel Maia de Toledo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Raags e Serialismo Dodecafônico.

Tangencias entre ocidente e oriente – está ainda em expansão e revisão. Comente agora, ou cale-se para sempre !!!! (brincadeira…)

Estabelecer esse parâmetro é possivel a partir de diversas evidências.

Como sabemos, as Raags são série de notas que formam melodias com caráter diversos. A teoria grega do caráter dos modos é apenas semelhante em conceito. Os modos gregos são sistemas de organização e relação dos sons a partir dos quais eram elaboradas melodias diversas.

 

As Raags são construções melódias fixas. Não sâo uma espécie de “modos”.

Fazem parte delas as organizações das alturas, com sons ascendentes e descentes , assim como o modo de entonação de cada uma das Swaras (sons da escala) , que recebe a denominação de Chala.

A base de sua construção é a organização escalar do que a Tradição Europeia Musical denominou como modo maior. Ele não foi uma invenção , mas resultou de um processo histórico da música, relacionado intimamente com o aguçamento da percepção da natureza intrínseca de relação dos sons, que vem a ser a série harmônica. A música tonal derivou-se disso , no meu modo de ouvir e compreender a partir da audição. Não estou sozinha, e o próprio Schoenberg descreve , no seu Tratado de Harmonia , a constituição histórica da tonalidade a partir da fusão dos sete modos maiores e menores eclesiásticos em apenas dois : o maior e o menor harmônico – tonais.

Não utilizo o termo “evolução” ou “progresso”, para evitar o equívoco de denotar um juízo de valor, muito comum, que aponta o mais novo e mais recente como mais válido e melhor necessariamente.

Pois bem, se o sistema musical indiano clássico pode ser explicado a partir do ocidental – de origem grega – ele contem do mesmo modo todas as sutilezas que foram se perdendo e se retomando ao longo da histórica da musica ocidental modal e tonal. Não podemos falar em sistema harmônico – tonal em relação à musica clássica indiana, evidentemente.

É muito importante mencionar que existem bases muito claras do ponto de vista da teoria , assim como denotar uma imensa variedade de sutilezas na produção dos sons, que formam um todo que a nós do ocidente parece muito mais impenetrável do ponto de vista da compreensão do que de fato é.

Existe um alicerce muito claro e sólido , a partir da qual se constroe por assim dizer a edificação musical.

O grande entrave que tínhamos era a falta de contato direto com os músicos indianos. Agora, com a internet, nos é possível ter o correlato sonoro do que está escrito no tratado Natyasastra, de Bharata-Muni , escrito entre os séculos II a.C e II d.C mas traduzido pela primeira vez para um idioma ocidental em 1961, na qual se baseou toda a especulação ocidental séria a respeito. Uma pessoa dotada de base em música conseguirá atualmente acessar professores indianos, que tem se encarregado de fazer essa ponte com o ocidente. Pessoalmente, até ouvir da fonte as explicações, eu achava tudo quase impenetrável para minha mente ocidental – e não se trata disso. No entanto, tem que ser transmitido de modo claro e consistente, sendo indispensável o correlato sonoro. É necessária também uma iniciação na cultura indiana para que se possa penetrar no seu domínio estético.

Segundo o que tem chegado até mim, a música indiana, e a carnática em especial, está sendo transmitida de modo equivocado, uma vez que isso está sendo feito por especialistas em práticas corporais indianas (Yogas, nas várias modalidades). Cantar as notas de mantras acompanhado ao violão, ou mesmo ao harmonium, não torna essa música proxima da India . Se mantêm-se uma atitude devocional em intenção, esta não produz a música carnática como ela é de fato.

Mesmo o pensamento que se trata de uma vanguarda trazendo um conhecimento oriental é equivocado. A música carnática, mais que a hindustani, tem sido pesquisada há muito pelos compositores da vanguarda erudita ocidental, que incorporaram e incorporam seus elementos conceituais de modo muito apropriado. Há que se aprofundar nas questões estéticas para ter a apreciação correta.

Se todos se voltam com facilidade para o modo de trabalho composicional de Tigran Hamasyan, ainda não está disseminado o mesmo olhar para a vanguarda erudita ocidental. Tigran elabora sua rítmica em Vardavar tendo como base Taals , que são padrões rítmicos , e os dispõe ciclicamente nessa composição. Há que se querer desvendar o mistério daquela rítmica que não se pode escrever segundo nosso pensamento. É uma obra jazzística com efeito magnífico, que nos agarra pelo pescoço e só solta após o termino da execução.

Existe um equívoco enorme em tentar avançar para a compreensão da dimensão metafísica antes de se ter atingido o domínio físico – ou seja, toda arte e toda prática exige um caminho de aprendizado racional e metódico. A música carnática tem esse aspecto fundamental, e nos tem chegado não por via dos músicos, mas por praticantes de Yoga que não tem formação musical para compreenderem ou questionarem o que lhes chega na India em termos de música.

Quanto mais alto se deseja erguer uma edificação, mais sólidos devem ser os alicerces e mais atentamente se ergue cada assentamento para um novo andar acima. Infelizmente nos estava sendo dado até pouco tempo apenas o bolo acabado, coberto e decorado. Foi publicado, por exemplo, um livro de Semiosis in Hindustani Music , trabalho de Doutorado em Filosofia da Musica pela Universidade de Helsink (1997), de José Luiz Martinez (1960-2007) , sem que no entanto ninguém no meio acadêmico brasileiro estivesse sequer familiarizado com seus princípios básicos – até onde eu tenho conhecimento. Um ponto sério – e básico – na confusão é a não diferenciação entre a música hindustani e carnática na India. Uma feita no norte, e outra no sul, tendo esta última permanecido ligada às raizes mais antigas, que remontam a 5.000 anos de existência segundo os autores.

Foi a partir desse contato direto com a fonte que tenho podido traçar interseções e perceber tangências entre a música carnática e a música dodecafônica de modo bastante intenso.

As Raags são inúmeras. Remetem a estados de espírito diversos, através de sua organização das notas melodicamente. Cada Raag tem um modo de entonação, e isso é o que vai lhe conferir beleza estética. Se o sistema de pensamento indiano pode ser explicado através do grego, ele não se restringe aos nossos tons das escalas temperadas artificias. Existem âmbitos de frequências das 12 notas do cromatismo da escala temperada. São considerados 7 sons principais, e mais 5 que completam o cromatismo (meios-tons). Porém, através de um treinamento auditivo rigoroso, o músico é treinado a perceber nuances de um modo especial . Cada limite inferior ou superior desse âmbito frequencial recebe o nome de shruti. As Raags levam em conta os 22 shrutis existentes. Um sol alto é diferente em frequência (Hz) de um lá bemol baixo.

Me deterei apenas nos principais aspectos que interessam para o fim desta exposição.

O sistema de composição serial dodecafônico tem muita semelhança com isso, e estou me reportando a como foi utilizado por A. Schoenberg, que foi um representante do Movimento Expressionista . Ele é a organização dos 12 sons da escala , restritos porém na música instrumental aos 12 sons da escala temperada artificialmente. A música indiana utiliza o temperamento natural – daí a consideração de um espectro sonoro mais amplo . O temperamento natural aparece aos nossos ouvidos como “desafinação” , vide os instrumentos de sopro antigos, como o trompete Barroco (presente no Concerto de Brandemburgo n. 1 de Bach, , que agora está sendo substituído pela Trompa da Caccia de Bach, recentemente reconstruída a partir de pintura). A história dos instrumentos ocidentais é a historia da fuga do temperamento natural na música europeia ocidental. Ou seja, utilizamos atualmente uma disposição distorcida da série harmônica como padrão de “afinação temperada”.

A Série Dodecafõnica é a utilização dos 12 tons cromáticos, compondo uma sequência que servirá de base para toda a composição. Não pode haver repetição de nenhum deles e a série não deve remeter à tonalidade. Toda a composição derivará dela.

Porém, a música é algo mais além do que belas melodias. Música é uma linguagem que implica jogo de tensões e distensões que não estão presentes apenas na tonalidade. Elas nos foram apresentadas formalmente pelas tonalidades, mas existem sem ela.

É a partir de A. Schoenberg (1874-1951) que se delineia um movimento que se dá exatamente na mesma direção do que propõe a música carnática : uma celebração das Swaras – uma celebração dos Sons. Estou me referindo a todo movimento da Música Eletronica, protagonizado de forma brilhante por Ligeti e Stockhausen, entre outros.

A. S. assume um rigor organizacional que está presente nas Raags. E ao mesmo tempo, imprime um sentido preciso na expressão de cada som. Cada nota deve ser exatamente articulada com uma intensidade, uma cor, e num momento específico. Os micro-ritmos estão ali, todos anotados, mas cabe ao intérprete fazer soar como improviso . Cabe ao intérprete transcender o anotado, transcender as notas, para se deter e permanecer no intangível, no sem referência material . E a referência material está sediada exatamente na tonalidade.

Ao entoar uma Raag, o cantor indiano como que foge das notas do cromatismo. Ele as atinge de modos indiretos, e logo após, se detém numa instabilidade frequencial característica e que lhe dá o tom do seu esteticamente belo. A música carnática é basicamente cantada.

E o que fará Schoenberg na música vocal ? Fez surgir nada mais nada menos que o Sprechgesang, que é a mistura de canto e fala. Aparece pela primera vez em Pierrot Lunaire , que foi vertida para diversos idiomas, e no Brasil temos a versão de Augusto de Campos, publicada em Música de Invenção. (S.P. : `Perspectiva, 1998).

 

Prefácio de Schoenberg ao Pierrot Lunair

“Aquilo que na voz falada (Sprechstimme) foi apresentado como melodia através das notas (salvo alguma exceção especialmente assinalada) não se destina a ser cantado. O executante deve levar em conta a altura do som indicada para transformá-la em uma melodia-falada (Sprechmelodie).
Isto se obtém desde que ele:
I.  Tenha estritamente o ritmo como se cantasse, Isto é,  sem maior Liberdade do que se poderia permitir numa melodia cantada.
II. Torne consciente da diferença entre som cantado (Gesangsmelodie) e som falado (Sprechton) : o som-cantado se conserva altura do som e invariavelmente fixa; o som falado dá a altura mas abandona imediatamente através de quedas ou subidas. O executante deve, porém, se precaver para não cair numa modalidade de fala “cantada”. Não é isso, absolutamente, o que é desejado. O que se pretende não é, de modo algum, uma fala realístico-natural. Ao contrário, a diferença entre a fala comum e a fala que coopera com uma forma musical deve se tornar clara. Mas também não se deve invocar uma canção.
Acrescente-se o seguinte a propósito da execução:

Aqui, jamais cabe aos executantes a tarefa de dar forma à disposição e ao caráter de uma peça particular a partir do sentido das palavras, mas sempre exclusivamente a partir da música. Tudo quanto pareceu relevante ao autor para apresentação plástico-sonora dos acontecimentos ou sensações do texto encontra-se de resto na música. Se o executante sentir falta dessa atuação deve renunciar a ela pois isso seria dar alguma coisa que o autor não quis. Ele aqui não daria, mas tomaria.

Arnold Schoenberg”.

 

Sua estréia ocorreu em 1912, enquanto a Sagração da Primavera em 1913. Pierrot Lunaire é anterior ao dodecafonismo.

Ele consegue a suspensão das funções tonais no Segundo Quarteto, que ocupa posição chave na sua produção. O caminho ao serialismo dodecafõnico foi sendo construído gradativamente, passa por obras atemáticas (op. 11).

Passa pela elaboração da Klangfarbenmelodie (melodia de timbres).

Após isso é que irá dedicar-se à arte lírica de fato : Erwartung (op. 17) e Die Glukliche Hand (op. 19), compostas entre 1908 1 1909. Pierrot Lunaire é de 1912.

A primeira obra completamente dodecafônica foi a Suite para Piano op. 25.

No seu Estilo e Idéia é possível detectar melhor os bastidores do que o instigou a abrir mão do sistema harmõnico-tonal. Foram buscas de diversas ordens, e é bom lembrar que ele teve que deixar a Alemanha devido a guerra. Até que teve uma vida privilegiada em comparação com outros artistas alemães que do mesmo modo se dirigiram para Los Angeles, com o intuiro de ter Hollywood como fonte de trabalho e renda. Outros não tiveram a mesma sorte, e viviam na penúria e decorrente depressão. Schoenberg esteve em contato próximo com Thomas Mann, e ficou furioso ao sentir-se retratado no Doutor Fausto – a vida do compositor alemão ADRIAN LEVERKUHN narrada por um amigo. T. Mann negou sempre que o tivesse retratado no romance.

Schoenberg, judeu, tinha uma forte veia mística. É dito sempre que a filosofia perene está presente como corpo comum a todas as crenças religiosas. Se ele teve influência consciente da música indiana ?

Bem, as teorias da música oriental estavam em circulaçao na Europa, visto que o On the Sensations of Tone (1863), do físico Hermann Helmholtz (1821-1894), menciona a música indiana. Trata-se do clássico de fisiologia acústica, onde é estabelecida a base científica da teoria musical ocidental. Na sua primeira parte explana sobre a sensação do som em geral, vibrações, som simpáticos, ressonâncias, e outros fenômenos. Na Parte II desenvolve a famosa teoria explicando porque os acordes são frações de números inteiros. Na parte III, a partir de diferentes princípios de estilos musicais presentes na história (Pitagórico, Eclisiástico, Chines, Árabe, Persa, Indiano, e outros) faz um estudo detalhado sobre nossoo próprio sistema tonal.

 

Curioso o fato que em 1878 ele publicou um artigo “The Telephone and the Quality of Sound”. Isso denota que as novas modas – o telefone neste caso – levavam a questionamentos novos também. Imagine-se ouvir voz humana a distância pelas primeiras vezes, com suas distorções ! A música não atravessaria incólume esse período, sem novos questionamentos , não ?

Continuarei.

 

Raquel Maia de Toledo.

São Paulo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vacuidade não é Vazio…..:

Vacuidade não é Vazio, mas vazio de existência intrínseca.

Tudo o que existe foi gerado por  causas, e existe,  sobretudo existe tal como é, devido a condições que permitem essa existência.

Tudo o que existe tem sua identidade definida pelo que o constitui e por tudo a que se relaciona. Tudo que o constitui também foi tecido a partir de relações, entrelaçamentos, derivações de outras coisas anteriores. Uma folha de papel exige matéria prima, exige mão de obra para ser confeccionada. Ela será  parte de outras existências , como um livro.  Um ser humano é porque foi gerado, e ele é a partir de sua ancestralidade, de sua família, seu núcleo social, e tudo o que o envolve. O mergulho num suposto eu, de natureza intrínseca, é um mergulho no nada, um mergulho num terror de inexistência.

O não causado não existe. A natureza intrínseca é inexistente. O causado e existente, sem  que hajam condições para seguir existindo ao menos,  tampouco sobrevive.

Vacuidade é Interdependência.

By Raquel.

 

 

 

 

 

 

 

Micro-ritmo

Ritmo e micro-ritmo são duas formas de existência, de manifestação da vida.

Te explico, e tudo vai ser fácil de entender.

Na música erudita existem as notas anotadas na partitura com seus valores exatos, e os músicos profissionais se esmeram em atingir a mais absoluta precisão.

Porém, tudo quanto é época, e tudo quanto é estilo na música, foi manobrado pra se tornar via de expressão humana. E a humanidade não tem sempre uma geometria assim plana, não tem simetria plena em todo momento, e acho que até isso ocorre em momentos muito raros.

– Sempre ouviu-se falar em ritmos na música, e agora lá vem ela com essa história nova, que até parece inventada neste momento !… esta é sua fala, que conclui : – Vou-me embora agora, porque desta coisa toda já estou farto !

–  Não vá ainda, que vou tentar encurtar – te respondo.

Micro-ritmo é a ginga, é o groove do jazz, é o rubato da Valsa, onde o 1, 2, 3 do músico que toca nunca se encaixa com o da pauta !

Micro-ritmo é um microjazz,  é aquele ritmo popular do Samba de Roda, que ninguém ´da conta de saber como se anota !

Micro-ritmo é a base rítmica da música de Bali que Jacob Collier tenta entender e imitar, esse músico jovem, compositor e multi-instrumentista, que você precisa conhecer…

Sobre tudo isto estão falando de forma bem complicada, e todos estão tentando entender pra que um dia, mesmo que tudo isso morra da tradição oral, a gente possa saber que um dia a gente fez…E talvez, através de tanta e tanta coisa escrita, a gente possa até entender !

Porque simples, e muito simples tudo isso é. Basta estar nas mãos de quem sabe fazer, do músico que está nas ruas, que está no bar, que está numa ilha tão longe…

Quem me contou  foi meu amigo David Bruce, ótimo compositor que vive na Inglaterra, mas que posso ver e escutar através de minha janela. Qual janela ? Esta aqui, ora bolas !!

 

R.M.T.

12/04/2019

 

 

 

 

 

 

 

 

Caixa de Spam

Caixa de Spam.

Tudo vai pra caixa de Spam – você já percebeu ?

Um sorriso tornou-se banal.

Uma tristeza ? ninguém quer ver…não de verdade.

Uma alegria ? Torna-se obsoleta tão rapidamente…..Puff…já está no momento de outra novidade….

Abraços reais estão já de fato bloqueados : eis aí uma outra categoria !

E o olhar ? Existe ainda o verdadeiro olhar ? Acho que esse ninguém bloqueia nem negligencia porque é tão raro encontrar, não ? Pra que se preocupar ?

Você . Você algum dia me viu ?

Você : Algum dia deu conta que eu existi ?

 

R. M. T.

11/04/2019

 

 

 

 

 

Dor

Eu sou a dor.

A dor dos excluídos, a dor dos renegados, a dor dos desesperados.

Sou a dor.

Aquela dor sofrida na solidão, no mais profundo desamparo.

Sou a dor do ódio e a dor da desesperança, que andam sempre em aliança.

A dor pálida. E também a dor roxa, a dor de todas as cores espalmadas e confusas, no mais sôfrego grito sobre a tela do artista.

Não, você não me conhece e nunca me olhou nos olhos – correria apavorado. Corre só de ouvir falar que estou por perto, e me deixa ali, na mais profunda solidão olhando pras entranhas de mim mesma naquele imenso abismo….

O que conhece de mim é aperitivo. Faço de mim um ensopado, encho de misturas mais cálidas, um afeto escondido, uma esperança mesmo que falsa…

Fuja de mim – fuja antes que eu te alcance.  De tão só que fiquei vou querer te devorar e fazer de ti minhas entranhas.

 

Raquel Maia de Toledo.

São Paulo,  10 de abril de 2019.

 

 

 

 

A “Lei do Anonato”

Ou meu vizinho domina a compreensão do inglês, ou….?

Só ouve musica nesse idioma. Ou melhor : ouve textos, porque melodias fabrico melhores falando!

E olhe que poderia ser pior!

Uma delas ele ouviu outro dia e está de novo escutando. Conhecida. Se esgota na primeira audição.

Preconceito? 

Muito pelo contrário!

Aposto no potencial de crescimento humano, e não sei onde nem em que momento coisa ruim acrescenta na fórmula…

Sou, ou fui,  educadora. 

 

Eu conheço de perto pessoas que se transformam dia a dia nos dejetos de si próprias. E os noticiários , que inclusive deixei de seguir ,  me apresentam uma nova a cada dia , ou até mais. 

Pessoas que ao invés de se estimularem umas às outras ao crescimento, fazem todo o esforço possível, e muito além do seu possível, porque agem em grupo, para apequenarem e destruírem até,  qualquer um que ouse crescer um milímetro acima de suas cabeças :  A Lei do Anonato. 

É contra isso que me rebelo. Educação é muito além do letramento. De fato, convivo com não letrados que são imensos em humanidade – muito mais que muitos letrados, e é isso que me importa. 

Então, toda música lixo eu renego, como renego toda e qualquer coisa que queira se fazer passar por arte, mas não passe de dejeto humano destinado a girar a economia de certo setor. 

Música ? Não é qualquer sucessão de notas com sentido parco e confuso. 

Poesia ? Não é qualquer ajuntamento banal de palavras 

Estou falando coisas muito sérias.

E tenho a autoridade que meu percurso de vida me conferiu pra dizer algumas coisas muito sérias. 

Como disse certa feita Ariano Suassuna, a respeito de um jornalista : se a gente utilizar genial pra um “pisa na barata”, ou para seu criador,  que critérios e que palavras teremos pra julgar uma 9a Sinfonia de Beethoven, e o próprio Beethoven ?

 

Raquel Maia de Toledo.

 

São Paulo, 7 de abril de 2019.